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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Movimentos Heréticos no Período Antigo



Por Alderi Souza de Matos


Ebionismo


O termo ebionitas deriva de uma palavra hebraica que significa "pobres" e designa uma seita de judeus cristãos ascéticos que sobreviveram à destruição de Jerusalém no ano 70, indo para o leste do rio Jordão. Sendo judaizantes, criam na salvação pela obediência à lei, rejeitavam os escritos de Paulo e davam ênfase às cartas de Tiago e Pedro. Para eles, Jesus era um profeta humano, o novo Moisés; era o filho de José que, ao ser batizado, foi adotado como Filho de Deus por causa de sua obediência à lei. Por serem poucos e estarem isolados, não subsistiram por muito tempo.


Gnosticismo

O gnosticismo foi uma filosofia religiosa altamente especulativa e sincrética que floresceu no século II, reunindo elementos mitológicos, helenísticos, cristãos e outros. Consistia acima de tudo numa doutrina de salvação. Na sua base estava um dualismo radical que colocava em oposição o mundo espiritual e o mundo material. O Deus supremo era o criador das realidades espirituais, incluindo a alma humana. Desse Deus procedia, por emanação, uma hierarquia de divindades inferiores, a última das quais, por vezes denominada no Pleroma (o mundo espiritual), as almas ficaram aprisionadas em corpos materiais. A salvação consiste na libertação do espírito imortal aprisionado na matéria, para que retorne ao seu mundo original divino. Para isso é necessário o conhecimento (em grego, gnosis), ou seja, a compreensão da situação humana. Esse conhecimento especial teria sido transmitido por Jesus a alguns de seus seguidores e agora era possuído somente pelos gnósticos, que o comunicavam aos seus iniciados (esoterismo).

O profundo desprezo pela matéria fez que os gnósticos representassem uma ameaça para várias convicções cristãs: a doutrina da criação e do governo divino sobre o mundo, o entendimento da salvação, a natureza da pessoa e obra de Cristo e a ressurreição do corpo. O gnosticismo não era um movimento homogêneo, mas muito diversificado. Havia várias escolas gnósticas, como a de Cerinto, na Ásia Menor, e as de Carpocrates, Basílides e Valentino, em Alexandria. Esse último foi para Roma, sendo excluído da igreja por volta de 155. Ensinou que o Cristo divino desceu sobre o homem Jesus em seu batismo e o abandonou antes da sua paixão. Sua missão foi trazer a gnosis, para que por ela os espíritos humanos pudessem retornar ao Pleroma de onde vieram.

Docetismo

O docetismo foi uma antiga manifestação de tendências gnósticas em certos setores do cristianismo primitivo. Em virtude do seu desprezo pela matéria, os docetistas negavam que Cristo tivesse um corpo real, dizendo que ele possuía apenas uma aparência de corpo. Daí o termo "docetismo", do verbo grego dokéo, "parecer". Esse ensino, que questionava a encarnação e a morte de Cristo na cruz, é claramente combatido tanto na literatura joanino do Novo Testamento (cf. 1Jo 4:2s; 2Jo 7) quanto nas cartas de Inácio de Antioquia.

Marcionismo

O marcionismo derivou seu nome de Marcião, também conhecido como Márcion, filho de um bispo de Sinope, na província do Ponto, no norte da Ásia Menor. Por volta do ano 144, ele chegou a Roma e passou a divulgar idéias, sendo expulso da igreja.

Influenciado por conceitos dualistas e gnósticos, Marcião estabeleceu um contraste radical entre o Antigo e o Novo Testamento: o primeiro representa o reino deste mundo e a lei (retribuição); o segundo representa o reino celestial e o evangelho (graça). Para ele, Jeová o criador do mundo material, é um ser imperfeito e vingativo; o Deus verdadeiro - o Pai de Jesus - é amoroso e perdoador. Portanto, cristãos nada têm a ver com o Antigo Testamento e sua divindade. O Deus verdadeiro perdoa a todos e assim toda a humanidade será salva. A salvação é do espírito, não do corpo.

Marcião foi o primeiro a elaborar um cânon do Novo Testamento. Para ele, as Escrituras cristãs deviam incluir somente o evangelho de Lucas e as cartas do apóstolo Paulo às igrejas, sem as pastorais. Os marcionitas formaram uma igreja, que subsistiu por alguns séculos.


Montanismo

O montanismo foi um movimento de natureza carismática ou entusiástica - o primeiro da história da Igreja - surgido na frígia, Ásia Menor, pouco após a metade do século II. Seus líderes eram Montano, um cristão que alegava ser o instrumento do Paráclito (o Espírito Santo), e duas profetizas, Priscila e Maximila.

Denominado "Nova Profecia" por seus adeptos, o movimento visava preparar o caminho para a iminente volta de Cristo e o milênio. A Igreja devia ter uma vida moral rigorosa e sofrer martírio. Por entenderem que eram dirigidos diretamente pelo Espírito, os montanistas se inclinavam a desprezar a Igreja institucional, atraindo a oposição dos seus líderes. Sob pressão intensa, o movimento sobreviveu no norte da África até o século V e na Frígia até o VI.

Monarquianismo

O monarquianismo não foi propriamente um movimento ou grupo organizado, mas um entendimento sobre a doutrina cristã de Deus. Os monarquianos eram fortes defensores da unidade do Ser Divino (monarquia ou monoteísmo) e queriam evitar que a noção de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo resultasse em triteísmo (três deuses). Nesse esforço, eles acabaram adotando duas posições: alguns negaram a divindade de Cristo, afirmando que só o Pai é Deus; outros afirmaram a divindade de Cristo e do Espírito, mas negaram que havia distinções pessoais no ser de Deus.

A primeira posição é conhecida como "monarquianismo dinâmico" ou adocionismo: o homem Jesus foi adorado por Deus como filho e recebeu o poder divino (dynamis). Foi essa a posição dos ebionitas e de Paulo de Samosata, bispo de Antioquia (c. 260), para quem o Verbo era apenas a razão, o poder ou a sabedoria de Deus que habitou no homem Jesus desde a sua concepção.

A segunda posição, denominada "monarquianismo modalista", afirmava que Deus é uma só essência e uma só pessoa, com três "modos" ou manifestações sucessivas - Pai Filho e Espírito Santo. Esse ensino também é conhecido como "sabelianismo", por ter sido defendido no início do século III por um certo Sabélio. Uma variante conhecida como "patripassianismo", abraçada por indivíduos como Práxeas e Noeto, afirmava que o Pai sofreu e morreu na cruz.

Com o passar do tempo, a Igreja acabou condenando como antibíblicas essas posições.


Fonte: Alderi Souza de Matos, Fundamentos de Teologia Histórica, Mundo Cristão, 2008, pp 38 - 41.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O que é Confessionalidade?


Por Inez Augusto Borges


INTRODUÇÃO

O que é confissão? O que é ser confessional? O que é confessionalidade? As duas primeiras palavras são encontradas em nossos dicionários de língua portuguesa e também em dicionários bíblicos. Entretanto, confessionalidade é um neologismo, ou seja, uma palavra recente para qual não existe ainda uma definição gramatical rigorosa e não é encontrada nos dicionários. A palavra confessionalidade tem sido frequentemente utilizada no contexto acadêmico e aparece quase sempre associada a um adjetivo como, por exemplo, "confessionalidade presbiteriana", "confessionalidade luterana", etc.

Sendo assim, por que gastar tempo refletindo sobre este tema? Qual a relevância da compreensão sobre o significado dele? Será que a confessionalidade é algo realmente digno de ocupar o precioso tempo de estudo semanal em uma escola dominical? Ao final da lição, você poderá responder, por si mesmo, essas questões. Vamos ao estudo.

I. DEFINIÇÃO DE TERMOS

A. Confessionalidade e seu contrário

Para entender o termo confessionalidade será necessário entender o seu oposto - a laicidade, laicismo ou laico. Essas palavras, que também não são comuns em nosso vocabulário cotidiano, tem o sentido de autonomia em relação às confissões religiosas. O movimento pelo laicismo surgiu no século 16, no período do renascimento cultural. Tratava-se de uma busca pela ausência do controle religioso na política, nas artes, nas ciências e na educação.

A ideia fundamental era que os cientistas, educadores, artistas e políticos deveriam trabalhar sem favorecimento ou perseguição decorrentes de ideias religiosas. A religião deveria se reservada para o espaço da vida privada e não poderia interferir nos negócios públicos. A existência dos Estados laicos, nos quais existe a liberdade de expressão da diversidade religiosa é uma conquista do movimento laico. O oposto do Estado laico é o Estado confessional,  ou seja, o Estado ou país que impõem uma crença religiosa aos cidadãos. Grande parte dos países muçulmanos são exemplos dessa confessionalidade nacional.

A laicidade é entendida como secularismo. No âmbito político, a palavra adquire sentido de neutralidade, ou de conferir tratamento igualitário a todas as religiões e também ao ateísmo. O movimento laico prima pelo não envolvimento do religioso nos assuntos de governo, da mesma maneira que requer o não envolvimento do governo nos assuntos religiosos.

Embora o movimento laico seja importante para evitar favoritismo ou perseguições por razões religiosas, o próprio movimento descambou em um radicalismo confessional, pois acabou por negar a validade da religião e, inclusive, tornou-se perseguidor e destruidor dos valores religiosos ou confessionais. Em nome da laicidade, passou-se a construir uma nova cosmovisão fundamentada na ideia de autonomia do ser humano.

Francis Schaeffer afirma que muitos dos grandes problemas sociais do século 20 estão ligados à destruição da família, à violência nas escolas públicas, à pornografia, permissividade e outros problemas morais resultantes da ausência de valores absolutos e ao apego a esta visão de mundo, segundo a qual "a realidade final é matéria ou energia impessoal posta na goma presente pelo acaso impessoal" (A Igreja no século 21, Cultura Cristã).

O que Schaeffer denuncia é a transformação do laico em confessional. Segundo ele, a tentativa de libertar as diversas esferas públicas do poder religioso criou uma nova religião - a religião humanista - e esta se tornou tão ou mais opressora do que as formas anteriores de opressão religiosa. De acordo com Schaeffer, não há possibilidade de existência da atitude laica, pois ou se estará confessando que a fé religiosa é parte da vida, das decisões e das atitudes diante de todas as situações da vida, ou se estará confessando que a vida é uma série de fragmentações, uma colcha de retalhos, na qual a religião ocupa apenas uma posição periférica.

B. Confissão

A palavra confissão está relacionada, no grego a um grupo de palavras (homologia) utilizadas com finalidade jurídica e comercial. Entre seus significados, destacam-se: concordar, reconhecer, admitir, declarar e prometer. O termo era primeiramente utilizado em um contexto de julgamento, no qual um homem concorda com a declaração de outro, concede ao outro o reconhecimento de que esse outro está correto, está falando a verdade e tem, portanto, o direito de atribuir a punição merecida. Confessar significava concordar que a penalidade seria justamente atribuída e se comprometer a cumpri-la. Confessar implicava assumir consequências.

Ao reconhecer uma dívida e prometer que o pagamento será feito, a palavra possuía um sentido jurídico e comercial. Admitir que é devedor não teria sentido se não houvesse disposição de assumir as consequências desse reconhecimento e efetuar o devido pagamento.

O emprego religioso da palavra confissão é posterior à sua utilização no contexto dos tribunais. Neste caso, o homem, por meio de juramento, entra em um relacionamento de aliança com a divindade. Assim, o termo confissão é transferido de uma confissão solene de mau procedimento diante de um tribunal, para a confissão de pecado diante da divindade. Na Septuaginta, tradução grego do Antigo Testamento, o conceito de confissão é utilizado cerca de 120 vezes, geralmente como tradução de palavras hebraicas que significam louvar e confessar. Às vezes se emprega com termos que devem ser entendidos conjuntamente, ou seja: dar louvor, reconhecer com louvor, confessar com louvor, adorar com cânticos (2Sm 22.50; Sl 7. 17; Sl 18. 49-50), cantar louvores, agradecer e celebrar (1Cr 16. 4; 29. 13; Sl 106.47).

C. Confissão e confessionalidade

Podemos agora relacionar a palavra confessionalidade com o que foi dito sobre confissão. Confessionalidade é um conjunto de crenças, princípios, símbolos e práticas que se explicitam na vida de uma pessoa ou instituição. É a atitude de assumir e confessar como valioso um conjunto de valores, princípios de conduta e também respostas para os questionamentos da vida. Consideremos que "confissão" seja aceitação de algo como verdadeiro e valoroso, bem como a proclamação ou declaração de que esse "algo" é significativo e digno de ser aplicado à nossa experiência de vida. Sendo assim, a confessionalidade terá então o sentido de um estilo de vida fundamentado nos valores escolhidos para direcionar a prática pessoal, familiar, profissional, social e espiritual.

A confessionalidade se aplica à vida do indivíduo da mesma forma como pode ser aplicada a uma instituição educacional, religiosa, filantrópica esportiva, etc.

II. SER HUMANO É SER CONFESSIONAL

Assumimos, neste contexto, que a palavra confessionalidade é um substantivo abstrato, assim como bondade, beleza, vaidade, vivacidade, etc. Substantivo abstrato é aquele que nomeia algo que depende de outro algo para se manifestar ou existir. Por exemplo, ninguém pode ver a beleza como tal, pois somente podemos contemplá-la em algo que é belo. Por isso, beleza é um substantivo abstrato. Do mesmo modo, a confessionalidade não pode ser vista de forma desvinculada de um ser confessional.

Podemos fazer uma aproximação ao termo, enfatizando que confessionalidade designa a tendência do ser humano em sua busca de sentido e de explicação para sua própria existência, assim como para a existência do universo e a origem e sentido da vida. O ser humano é um ser confessional. Isto significa que todo ser humano confessa (acredita e afirma) algo sobre si mesmo e sobre o universo.

A confessionalidade é, portanto, a impossibilidade da neutralidade. O ser humano não consegue deixar de formular questões ou aceitar impassivelmente, respostas que são impostas a ele. A confessionalidade está ligada à própria racionalidade humana. Por se tratar de um ser racional, que precisa justificar sua própria existência, é possível admitir que todo ser humano possui um conjunto de crenças que constituem sua confessionalidade. A confessionalidade está ligada à identidade. Aquilo que confesso como sendo verdadeiro para mim define quem eu sou, com quem me relaciono e com quem eu rompo.

III. TODA CONFESSIONALIDADE TEM CONSEQUÊNCIAS

Francis Schaeffer afirma que os humanistas compreenderam muito bem a impossibilidade da neutralidade. Eles reconheceram, antes que os cristãos modernos, que a forma como interpretamos a realidade produz resultados na realidade. Não é possível viver como se Deus existisse e se importasse com tudo o que você faz e, ao mesmo tempo, viver como se ele se importasse apenas com a parte religiosa da sua vida. A visão laica da realidade se transformou em uma confissão radical sobre a não existência de Deus, sobre a centralidade e supremacia da razão humana. Dessa forma, segundo Schaeffer, o homem se perdeu. A confessionalidade materialista não dá conta de explicar o ser humano, pois o reduz a muito menos do que ele é. Ao afirmar que a realidade final é apenas "matéria-e-energia-ao-acaso" esta confissão materialista não encontra a mínima sustentação necessária para desenvolver um conceito de dignidade humana, de sociedade justa, de legalidade ou justiça. Tudo se relativiza. Em lugar de reconhecer a dignidade do ser humano, essa visão de mundo o vê apenas como um animal intrinsecamente competitivo sem nenhum princípio ou motivação que vá além da seleção natural.

Em termos educacionais, por exemplo, a laicidade, ou não confessionalidade, tem sido o clamor dos países que se reconhecem como cristãos. Embora a liberdade de expressão religiosa seja a indispensável base da liberdade e justiça social, na maioria dos países cristãos europeus e nos Estados Unidos da América, a autonomia da educação em relação à religião resultou em proibição do ensino religioso nas escolas e, por fim, à expulsão de Deus dos textos e das práticas escolares.

O ensino a respeito da evolução leva crianças, adolescentes e jovens a considerarem a si mesmos e aos demais seres humanos como destituídos de qualquer dignidade intrínseca à condição humana. Afinal, que dignidade pode haver em seres que são vistos apenas como semelhantes a brutos irracionais?

IV. A CONFESSIONALIDADE CRISTOCÊNTRICA

A confissão cristã deve ter Cristo como centro, como Senhor e Salvador. Colossenses 1. 13-20 é uma maravilhosa confissão de fé no Cristo vivo, que estava com o Pai no princípio da criação, que sustenta todas as coisas, e que se deu por todos nós, na cruz do calvário.

O reconhecimento dessas verdades espirituais não pode ser algo apenas intelectual. É obra do Espírito Santo de Deus. É ele quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo. E é também ele quem nos faz lembrar de tudo o que o Senhor Jesus nos ensinou por meio de sua Palavra registrada nos Evangelhos e também por meio de seus atos de amor e santidade.

Confessar que Jesus Cristo é tudo o que o texto de Colossenses nos ensina que ele é, exige mudança de vida, exige transformação da mente, dos sentimentos e do comportamento em relação a Deus, ao próximo e em relação a nós mesmos e aos nossos dons e responsabilidade perante Deus e os homens. A confessionalidade cristã exige prática, ou seja, exige prática que imite a Cristo.

Os cristãos primitivos tinham o adequado conhecimento do que era a confissão cristã. Confessar que Jesus Cristo é Senhor implicava negar que César é senhor. Implicava disposição para enfrentar os riscos da confissão. Implicava também em aceitar as responsabilidades decorrentes dessa confissão. Os cristãos entenderam que deveriam ser servos uns dos outros, que não deveriam temer a morte, pois haviam recebido a promessa da vida eterna em Cristo Jesus. Paulo confessou que preferia a morte, para estar com Cristo. O resultado da vida prática confirmando a fé é um bom exemplo do que era entendido como confissão. Os primeiros cristãos diziam que Jesus Cristo é Senhor. Então, viviam como servos desse Senhor e não como donos de sua própria vida, de seu próprio tempo, de seu próprio dinheiro. Eles sabiam que prestariam contas a este Senhor. Eles confessavam ser uma família, assumiam que eram irmãos em Cristo. Então, viviam em comunidades, repartindo entre si o pão, o abrigo, o ensino, o sofrimento e as alegrias. Eles se regozijavam na comunhão e no partir do pão. Eles oravam juntos. Eles serviam juntos.

CONCLUSÃO

A confessionalidade cristã, conforme expressa na Bíblia, exige assumir publicamente a crença de que Deus é Criador do universo, que o ser humano foi criado por Deus para o louvor da sua glória, mas que pecou e é réu de morte, digno do inferno, tendo necessidade de redenção que somente pode ser propiciada pela graça e misericórdia reveladas no sacrifício de Jesus Cristo em nosso lugar.

Este conjunto de crenças é, na verdade, uma só. Dela deve derivar uma postura diante da vida, que tem consequências não apenas para a salvação eterna, mas para a vida diária, para os relacionamentos, para a escolha profissional e conjugal, etc. Se cremos que nossa vida foi planejada por Deus para resultar em glória ao seu próprio nome, não podemos vivê-la como se fôssemos animais racionais em competição com outros, sem um propósito mais elevado para nossa existência. 

APLICAÇÃO

Que tal reavaliar sua confessionalidade e sua prática diária? Como você pode se descrever como alguém que é confessional? Que Deus dirija você em um novo posicionamento em todos os contextos nos quais ele mesmo o tem colocado, para que você seja sal da terra e luz do mundo. Amém.


Fonte: Nossa Fé [O que é Isso?], Revista do Aluno, Parte 2, Lição 11, Cultura Cristã.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ao Cometer Suicídio, o Cristão Perde a Salvação?

Por Miguel Núñez


Esse tem sido um dos temas mais controversos ao longo dos anos, e que lamentavelmente muitos têm respondido de uma maneira emocional e não através da análise bíblica. Aqueles de nós que crescemos no catolicismo sempre ouvimos que o suicídio é um pecado mortal que irremediavelmente envia a pessoa para o inferno. Para muitos que têm crescido com essa posição, é impossível despojar-se dessa ideia.

Outros têm estudado o tema e, depois de fazê-lo, concluem que nenhum cristão seria capaz de acabar com sua própria vida. Há outros que afirmam que um cristão poderia cometer suicídio, mas perderia a salvação. E ainda outros pensam que um cristão poderia cometer suicídio em situações extremas, sem que isso o conduza à condenação.

Em essência temos, então, quatro posições:

  1. Todo aquele que comete suicídio, sob qualquer circunstância, vai para o inferno (posição Católica Tradicional).
  2. Um cristão nunca chega a cometer suicídio, porque Deus impediria.
  3. Um cristão pode cometer suicídio, mas perderá sua salvação.
  4. Um cristão pode cometer suicídio, sem que necessariamente perca sua salvação. 
A primeira dessas quatro posições foi basicamente a única crença até a época da Reforma, quando a doutrina da salvação (Soteriologia) começou a ser melhor estudada e entendida. Nesse momento, tanto Lutero como Calvino concluíram que eles não podiam afirmar categoricamente que um cristão não poderia cometer suicídio e/ou o que se suicidava iria ser condenado. Na medida em que a salvação das almas foi sendo analisada em detalhes, muitos dos reformadores começaram a fazer conclusões, de maneira distinta, sobre a posição que a Igreja de Roma tinha até então.

No fim das contas, a pergunta é: O Que a Bíblia diz?
Começamos mencionando aquelas coisas que sabemos de maneira definitiva a partir da revelação de Deus:

  • O ser humano é totalmente depravado (primeiro ponto do TULIP calvinista). Com isso, não queremos dizer que o ser humano é tão mal quanto poderia ser, mas que todas as suas capacidades estão manchadas pelo pecado: sua mente ou intelecto, seu coração ou emoções, e sua vontade.
  • O cristão foi regenerado, mas mesmo depois de ter nascido de novo, devido à permanência da natureza carnal, continua com a capacidade de cometer qualquer pecado, com a exceção do pecado imperdoável.
  • O pecado imperdoável é mencionado em Marcos 3:25-32 e outras passagens, e a partir desse contexto podemos concluir que esse pecado se refere à rejeição contínua da ação do Espírito Santo na conversão do homem. Outros, a partir dessa passagem citada, atribuem a Satanás as obras do Espírito de Deus. Obviamente, em ambos os casos está se fazendo referência a uma pessoa incrédula.
  • De maneira particular, queremos destacar que o cristão é capaz de tirar a vida de outra pessoa, como fez o Rei Davi, sem que isso afete a sua salvação.
  • O sacrifício de Cristo na cruz perdoou todos os nossos pecados: passados, presentes e futuros (Colossenses 2:13-14, Hebreus 10:11-18)
  • O anterior implica que o pecado que um cristão cometerá amanhã foi perdoado na cruz, onde Cristo nos justificou, e fomos declarados justos sem de fato sermos, e o fez como uma só ação que não necessita ser repetida no futuro. Na cruz, Cristo não nos tornou justificáveis, mas justificados (Romanos 3:23-26, Romanos 8:29-30)

A salvação e o ato do suicídio
Dentro do movimento evangélico existe um grupo de crentes, a quem já aludimos, denominados Arminianos, que diferem dos Calvinistas em relação à doutrina da salvação. Uma dessas diferenças, que não é a única, gira em torno da possibilidade de um cristão poder perder a salvação. Uma grande maioria nesse grupo crê que o suicídio é um dos pecados capazes de tirar a salvação do crente. Nós, que afirmamos a segurança eterna do crente (Perseverança dos Santos), não somos daqueles que acreditam que o suicídio ou qualquer outro pecado eliminaria a salvação que Cristo comprou na cruz.

Tanto na posição Calvinista como na Arminiana, alguns afirmam que um cristão jamais cometerá suicídio. No entanto, não existe nenhum versículo ou passagem bíblica que possa ser usado para categoricamente afirmar essa posição. Alguns, sabendo disso, defendem sua posição indicando que na Bíblia não há nenhum suicídio cometido pelos crentes, enquanto aparecem vários casos de personagens não crentes que acabaram com suas vidas. Com relação a essa observação, gostaria de dizer que usar isso para estabelecer que um cristão não pode cometer suicido não é uma conclusão sábia, porque estamos fazendo uso de um argumento de silêncio, que na lógica é o mais débil de todos. Há várias coisas não mencionadas na Bíblia (centenas ou talvez milhares) e se fizermos uso de argumentos de silêncio, estamos correndo o risco de estabelecer possíveis verdades nunca reveladas na Bíblia. Exemplo: não aparece um só relato de Jesus rindo; a partir disso eu poderia concluir que Jesus nunca riu ou não tinha capacidade para rir. Seria esse um argumento sólido? Obviamente não.

Gostaríamos de enfatizar que, se alguém que vive uma vida consistente com a fé cristã comete suicídio, teríamos que nos perguntar antes de ir mais além, se realmente essa pessoa evidenciava frutos de salvação, ou se sua vida era mais uma religiosidade do que qualquer outra coisa. Eu acho que, provavelmente, esse seria o caso da maioria dos suicídios dos chamados cristãos.

Apesar disso, cremos que, como Jó, Moisés, Elias e Jeremias, os cristãos podem se deprimir tanto a ponto de quererem morrer. E se esse cristão não tem um chamado e um caráter tão forte como o desses homens, pensamos que pode ir além do mero desejo e acabar tirando a própria vida. Nesse caso, o que Deus permitir acontecer pode representar parte da disciplina de Deus, por esse cristão não ter feito uso dos meios da graça dentro do corpo de Cristo, proporcionados por Deus para a ajuda de seus filhos.

Muitos acreditam, como já mencionamos, que esse pecado cometido no último momento não proveu oportunidade para o arrependimento, e é isso o que termina roubando-lhe a salvação ao suicidar-se. Eu quero que o leitor faça uma pausa nesse momento e questione o que aconteceria se ele morresse nesse exato momento, se ele pensa que morreria livre de pecado. A resposta para essa pergunta é evidente: Não! Ninguém morre sem pecado, porque não há nenhum instante em nossas vidas em que o ser humano está completamente livre do pecado. Em cada momento de nossa existência há pecados em nossas vidas dos quais não estamos nem sequer apercebidos, e outros que nem conhecemos, mas que nesse momento não temos nos dirigido ao Pai para buscar seu perdão, simplesmente porque o consideramos um pecado menos grave, ou porque estamos esperando pelo momento apropriado para ir orar e pedir tal perdão.

A realidade sobre isso é que, quando Cristo morreu na cruz, ele pagou por nossos pecados passados, presentes e futuros, como já dissemos. Portanto, o mesmo sacrifício que cobre os pecados que permanecerão conosco até o momento de nossa morte é o que cobrirá um pecado como o suicídio. A Palavra de Deus é clara em Romanos 8:38 e 39: “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Note que o texto diz que “nenhuma outra coisa criada”. Esta frase inclui o próprio crente. Notemos também que essa passagem fala que “nem as coisas do presente, nem do porvir”, fazendo referência às situações futuras que ainda não vivemos. Por outro lado, João 10:27-29 nos fala que ninguém pode nos arrebatar da mão de nosso Pai, e Filipenses 1:6 diz que “aquele que começou a boa obra em vós, há de completá-la até o dia de Cristo Jesus”. Concluindo:

  • Se estabelecemos que o cristão é capaz de cometer qualquer pecado, por que não conceber que potencialmente ele poderá cometer o pecado do suicídio?
  • Se estabelecemos que o sangue de Cristo é capaz de perdoar todo pecado, ele não cobriria esse outro pecado?
  • Se o sacrifício na cruz nos tornou perfeitos para sempre, como diz o autor de Hebreus (7:28, 10:14), não seria isso suficiente para afirmarmos que nenhum pecado rouba a nossa salvação?
  • Se até Moisés chegou a desejar que Deus lhe tirasse a vida, devido à pressão que o povo exerceu sobre ele, não poderia um paciente esquizofrênico ou na condição de depressão extrema, que não tenha a força de caráter de um Moisés, atentar contra a sua própria vida de maneira definitiva?
  • Se não somos Deus e não temos nenhuma maneira de medir a conversão interior do ser humano, poderíamos afirmar categoricamente que alguém que deu testemunho de cristão durante sua vida, ao cometer suicídio, realmente não era um cristão?
  • Baseados na história bíblica e na experiência do povo de Deus, poderíamos concluir que o suicídio entre crentes provavelmente é uma ocorrência extraordinariamente rara, devido à ação do Espírito Santo e aos meios de graça presentes no corpo de Cristo.
  • Pensamos que o suicídio é um pecado grave, porque atenta contra a vida humana. Mas já estabelecemos que um crente é capaz de eliminar a vida humana, como o fez Davi. Se eu posso fazer algo contra alguém, como não conceber que posso fazê-lo contra mim mesmo? Essa é a nossa posição.

Como você pode ver, não é tão fácil estabelecer uma posição categórica sobre o suicídio e a salvação. Tudo o que podemos fazer é raciocinar através de verdades teológicas claramente estabelecidas, a fim de chegar a uma provável conclusão sobre um fato não estabelecido de forma definitiva. Portanto, quanto mais coerentemente teológico for meu argumento, mais provável será a conclusão que eu chegar. Agostinho tinha razão ao dizer: “Naquilo que é essencial, unidade; naquilo que é duvidoso, liberdade; e em todas as coisas, caridade”. Minha recomendação é que você possa fazer um estudo exaustivo, outra vez ou pela primeira vez, acerca de tudo o que Deus disse sobre a salvação, que é muito mais importante que o suicídio, que é quase nada.


***

P. S: A cada dia que se passa, cresce o número de suicidas. Não cremos que o suicídio seja a melhor forma de resolver as situações difíceis da vida. Se por acaso esse sentimento lhe perturbe, recomendamos que solicite ajuda pastoral o quanto antes.