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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Movimentos Heréticos no Período Antigo



Por Alderi Souza de Matos


Ebionismo


O termo ebionitas deriva de uma palavra hebraica que significa "pobres" e designa uma seita de judeus cristãos ascéticos que sobreviveram à destruição de Jerusalém no ano 70, indo para o leste do rio Jordão. Sendo judaizantes, criam na salvação pela obediência à lei, rejeitavam os escritos de Paulo e davam ênfase às cartas de Tiago e Pedro. Para eles, Jesus era um profeta humano, o novo Moisés; era o filho de José que, ao ser batizado, foi adotado como Filho de Deus por causa de sua obediência à lei. Por serem poucos e estarem isolados, não subsistiram por muito tempo.


Gnosticismo

O gnosticismo foi uma filosofia religiosa altamente especulativa e sincrética que floresceu no século II, reunindo elementos mitológicos, helenísticos, cristãos e outros. Consistia acima de tudo numa doutrina de salvação. Na sua base estava um dualismo radical que colocava em oposição o mundo espiritual e o mundo material. O Deus supremo era o criador das realidades espirituais, incluindo a alma humana. Desse Deus procedia, por emanação, uma hierarquia de divindades inferiores, a última das quais, por vezes denominada no Pleroma (o mundo espiritual), as almas ficaram aprisionadas em corpos materiais. A salvação consiste na libertação do espírito imortal aprisionado na matéria, para que retorne ao seu mundo original divino. Para isso é necessário o conhecimento (em grego, gnosis), ou seja, a compreensão da situação humana. Esse conhecimento especial teria sido transmitido por Jesus a alguns de seus seguidores e agora era possuído somente pelos gnósticos, que o comunicavam aos seus iniciados (esoterismo).

O profundo desprezo pela matéria fez que os gnósticos representassem uma ameaça para várias convicções cristãs: a doutrina da criação e do governo divino sobre o mundo, o entendimento da salvação, a natureza da pessoa e obra de Cristo e a ressurreição do corpo. O gnosticismo não era um movimento homogêneo, mas muito diversificado. Havia várias escolas gnósticas, como a de Cerinto, na Ásia Menor, e as de Carpocrates, Basílides e Valentino, em Alexandria. Esse último foi para Roma, sendo excluído da igreja por volta de 155. Ensinou que o Cristo divino desceu sobre o homem Jesus em seu batismo e o abandonou antes da sua paixão. Sua missão foi trazer a gnosis, para que por ela os espíritos humanos pudessem retornar ao Pleroma de onde vieram.

Docetismo

O docetismo foi uma antiga manifestação de tendências gnósticas em certos setores do cristianismo primitivo. Em virtude do seu desprezo pela matéria, os docetistas negavam que Cristo tivesse um corpo real, dizendo que ele possuía apenas uma aparência de corpo. Daí o termo "docetismo", do verbo grego dokéo, "parecer". Esse ensino, que questionava a encarnação e a morte de Cristo na cruz, é claramente combatido tanto na literatura joanino do Novo Testamento (cf. 1Jo 4:2s; 2Jo 7) quanto nas cartas de Inácio de Antioquia.

Marcionismo

O marcionismo derivou seu nome de Marcião, também conhecido como Márcion, filho de um bispo de Sinope, na província do Ponto, no norte da Ásia Menor. Por volta do ano 144, ele chegou a Roma e passou a divulgar idéias, sendo expulso da igreja.

Influenciado por conceitos dualistas e gnósticos, Marcião estabeleceu um contraste radical entre o Antigo e o Novo Testamento: o primeiro representa o reino deste mundo e a lei (retribuição); o segundo representa o reino celestial e o evangelho (graça). Para ele, Jeová o criador do mundo material, é um ser imperfeito e vingativo; o Deus verdadeiro - o Pai de Jesus - é amoroso e perdoador. Portanto, cristãos nada têm a ver com o Antigo Testamento e sua divindade. O Deus verdadeiro perdoa a todos e assim toda a humanidade será salva. A salvação é do espírito, não do corpo.

Marcião foi o primeiro a elaborar um cânon do Novo Testamento. Para ele, as Escrituras cristãs deviam incluir somente o evangelho de Lucas e as cartas do apóstolo Paulo às igrejas, sem as pastorais. Os marcionitas formaram uma igreja, que subsistiu por alguns séculos.


Montanismo

O montanismo foi um movimento de natureza carismática ou entusiástica - o primeiro da história da Igreja - surgido na frígia, Ásia Menor, pouco após a metade do século II. Seus líderes eram Montano, um cristão que alegava ser o instrumento do Paráclito (o Espírito Santo), e duas profetizas, Priscila e Maximila.

Denominado "Nova Profecia" por seus adeptos, o movimento visava preparar o caminho para a iminente volta de Cristo e o milênio. A Igreja devia ter uma vida moral rigorosa e sofrer martírio. Por entenderem que eram dirigidos diretamente pelo Espírito, os montanistas se inclinavam a desprezar a Igreja institucional, atraindo a oposição dos seus líderes. Sob pressão intensa, o movimento sobreviveu no norte da África até o século V e na Frígia até o VI.

Monarquianismo

O monarquianismo não foi propriamente um movimento ou grupo organizado, mas um entendimento sobre a doutrina cristã de Deus. Os monarquianos eram fortes defensores da unidade do Ser Divino (monarquia ou monoteísmo) e queriam evitar que a noção de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo resultasse em triteísmo (três deuses). Nesse esforço, eles acabaram adotando duas posições: alguns negaram a divindade de Cristo, afirmando que só o Pai é Deus; outros afirmaram a divindade de Cristo e do Espírito, mas negaram que havia distinções pessoais no ser de Deus.

A primeira posição é conhecida como "monarquianismo dinâmico" ou adocionismo: o homem Jesus foi adorado por Deus como filho e recebeu o poder divino (dynamis). Foi essa a posição dos ebionitas e de Paulo de Samosata, bispo de Antioquia (c. 260), para quem o Verbo era apenas a razão, o poder ou a sabedoria de Deus que habitou no homem Jesus desde a sua concepção.

A segunda posição, denominada "monarquianismo modalista", afirmava que Deus é uma só essência e uma só pessoa, com três "modos" ou manifestações sucessivas - Pai Filho e Espírito Santo. Esse ensino também é conhecido como "sabelianismo", por ter sido defendido no início do século III por um certo Sabélio. Uma variante conhecida como "patripassianismo", abraçada por indivíduos como Práxeas e Noeto, afirmava que o Pai sofreu e morreu na cruz.

Com o passar do tempo, a Igreja acabou condenando como antibíblicas essas posições.


Fonte: Alderi Souza de Matos, Fundamentos de Teologia Histórica, Mundo Cristão, 2008, pp 38 - 41.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Nossa Missão Como Soldados é Destruir Idéias Falsas

 

Por John MacArthur

 
Esta não é, de modo algum, a primeira vez que a guerra pela verdade se introduziu na igreja. Isso tem acontecido em todas as principais épocas da história da igreja. Batalhas pela verdade têm rugido na comunidade cristã desde os tempos dos apóstolos, quando a igreja estava apenas começando. Na realidade, o relato das Escrituras indica que os falsos mestres na igreja logo se tornaram um problema significativo e amplamente difundido aonde quer que o evangelho chegasse. Quase todas as principais epístolas do Novo Testamento abordam esse problema, de uma maneira ou de outra. O apóstolo Paulo estava sempre envolvido numa batalha contra as mentiras dos "falsos apóstolos, obreiros fraudulentos", que se transformavam em apóstolos de Cristo (2 Coríntios 11.13). Paulo disse que isso era de se esperar. Afinal de contas, essa é uma das estratégias prediletas do Maligno: "E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformam em ministros de justiça" (w. 14-15).

Seria uma ingenuidade deliberada negar que isso pode acontecer em nossos tempos. De fato, isso está acontecendo em grande escala. O tempo presente não é favorável a que os cristãos flertem com o espírito da época. Não podemos ser apáticos quanto à verdade que Deus nos confiou. Nosso dever é guarda-la, proclamá-la e transmiti-la à geração seguinte (1 Timóteo 6.20-21). Nós, que amamos a Cristo e cremos na verdade incorporada nos ensinos dEle, precisamos ter plena consciência da re-alidade da batalha que ruge em nosso redor. Devemos cumprir nosso papel na guerra pela verdade, que já dura muitas eras. Temos a obrigação sagrada de participar da batalha e lutar pela fé.
 
Em sentido restrito, a idéia motriz por detrás do movimento da Igreja Emergente está correta: o clima atual do pós-modernismo representa realmente uma vitrine maravilhosa de oportunidades para a igreja de Jesus Cristo. A arrogância que dominava a era moderna está em suas agonias de morte. O mundo, na sua maior parte, foi apanhado em desilusão e confusão. As pessoas se sentem inseguras a respeito de quase tudo e não sabem que rumo tomar em busca da verdade.
 
Entretanto, a pior estratégia para ministrar o evangelho num clima assim é os cristãos imitarem a incerteza ou ecoarem o cinismo da perspectiva pós-moderna — e arrastarem a Bíblia e o evangelho para dentro dessa perspectiva. Em vez disso, precisamos afirmar, de modo contrário ao espírito desta época, que Deus falou com a maior clareza e autoridade, de modo definitivo, através de seu Filho (Hebreus 1.1-2). E temos, nas Escrituras, o registro infalível dessa mensagem (2 Pedro 1.19-21).
O pós-modernismo é simplesmente a expressão mais atual da incredulidade mundana. Seu valor essencial — uma ambivalência dúbia para com a verdade — não passa de ceticismo destilado em sua essência pura. No pós-modernismo, não existe nada virtuoso nem genuinamente humilde. Ele é uma rebelião arrogante contra a revelação divina.
 
De fato, a hesitação do pós-modernismo no tocante à verdade é a antítese exata da confiança ousada que, segundo as Escrituras, é o direito de família de todo crente (Efésios 3.12). Essa segurança é operada pelo próprio Espírito de Deus naqueles que crêem (1 Tes-salonicenses 1.5). Precisamos valorizar essa segurança e não temer confrontar o mundo com ela.
 
A mensagem do evangelho, em todos os fatos que a constituem, é uma proclamação clara, específica, confiante e autorizada de que Jesus é Senhor e de que Ele dá vida eterna e abundante a todos os que crêem. Nós, que conhecemos verdadeiramente a Cristo e recebemos aquela dádiva da vida eterna, também recebemos da parte dEle uma comissão clara e específica de transmitir com ousadia a mensagem do evangelho, como embaixadores dEle. Se não demonstrarmos igualmente clareza e nitidez em nossa proclamação da mensagem, não seremos bons embaixadores.
 
Mas não somos meros embaixadores. Somos, ao mesmo tempo, soldados comissionados a guerrear em favor da defesa e disseminação da verdade, face aos ataques constantes contra a verdade. Somos embaixadores com uma mensagem de boas-novas para as pessoas que andam em trevas e vivem na região da sombra da morte (Isaías 9.2). E somos soldados — com ordens para destruir fortalezas ideológicas e derrubar as mentiras e enganos engendrados pelas forças do mal (2 Coríntios 10.3-5; 2 Timóteo 2.2-4).
 
Observe atentamente: nossa tarefa como embaixadores é levar as boas-novas às pessoas. Nossa missão como soldados é destruir idéias falsas. Devemos manter esses objetivos no seu devido lugar; não temos o direito de declarar guerra contra as próprias pessoas, nem de entrar em relacionamentos diplomáticos com idéias anti-cristãs. Nossa guerra não é contra a carne e o sangue (Efésios 6.12); nosso dever como embaixadores não nos permite transigir com qualquer tipo de filosofia humana, engano religioso ou outro tipo de mentira nem a nos alinhar com alguma delas (Colossenses 2.8).
 
Se parece difícil manter essas duas tarefas em equilíbrio e na pers-pectiva adequada, isso acontece porque elas são realmente difíceis.
 
Judas certamente entendeu isso. O Espírito Santo o inspirou a escrever a sua breve epístola a pessoas que estavam lutando com essas mesmas questões. Contudo, ele as exortou a batalharem diligentemente pela fé, contra toda falsidade, ao mesmo tempo que faziam tudo que lhes era possível para livrarem almas da destruição: arrebatando-as "do fogo... detestando até a roupa contaminada pela carne" (Judas 23).
 
Somos, portanto, embaixadores e soldados; procuramos alcançar os pecadores com a verdade, ao mesmo tempo que envidamos todos os esforços para destruir as mentiras e outras formas de mal que os mantêm na escravidão mortífera. Esse é um resumo perfeito do dever de todo cristão na guerra pela verdade.
 
Martinho Lutero, aquele nobre soldado do evangelho, lançou este desafio diante dos cristãos de todas as gerações que o sucederam, ao dizer:
 
Se, com a voz mais elevada e a exposição mais nítida, eu professar toda porção da verdade de Deus, mas não confessar exatamente o pormenor que o mundo e o Diabo estão atacando naquele momento, não estou confessando a Cristo, ainda que esteja professando-0 com ousadia. Onde a batalha ruge, ali é provada a lealdade do soldado. E ficar firme em todos os demais pontos do campo de batalha é mera fuga e vergonha, se o soldado falhar naquele pormenor.
 
 
Fonte: O Calvinismo