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sábado, 8 de março de 2014

A Doutrina da Trindade na História

Por Louis Berkhof


A doutrina da Trindade sempre enfrentou dificuldade e, portanto, não é de admirar que a Igreja, em seus esforços para formulá-la, tenha sido repetidamente tentada a racionalizá-la e a dar-lhe uma construção que deixava de fazer justiça aos dados da Escritura.

1. PERÍODO DA PRÉ-REFORMA.

Os judeus do tempo de Jesus davam muita ênfase à unidade de Deus, e essa ênfase foi trazida para dentro da Igreja Cristã. O resultado foi que alguns eliminaram completamente as distinções pessoais da Divindade, e que outros não fizeram plena justiça à divindade essencial da segunda e da terceira pessoas da Trindade Santa. Tertuliano foi o primeiro a empregar o termo "Trindade" e a formular a doutrina, mas a sua formulação foi deficiente, desde que envolvia uma infundada subordinação do Filho ao Pai. Orígenes foi mais longe nessa direção, ensinando explicitamente que o Filho é subordinado ao Pai quanto à essência, e que o Espírito Santo é subordinado até mesmo ao Filho. Ele desacreditou a divindade essencial dessas duas pessoas do Ser divino e forneceu um ponto de partida aos arianos, que negavam a divindade do Filho e do Espírito Santo, apresentando o Filho como a primeira criatura do Pai, e o Espírito Santo como a primeira criatura do Filho. Assim, a consubstancialidade do Filho e do Espírito Santo com o Pai foi sacrificada, com o fim de preservar a unidade; e, segundo esse conceito, as três pessoas da Divindade diferem em grau de dignidade. Os arianos ainda conservaram resquícios da doutrina das três pessoas da Divindade, mas essa foi inteiramente sacrificada pelo monarquianismo, em parte no interesse da unidade de Deus e em parte para manter a divindade do Filho. O monarquianismo dinâmico via em Jesus apenas o homem e no Espírito Santo, uma influência divina, enquanto o monarquianismo modalista considerava o Pai, o Filho e o Espírito Santo meramente como três modos de manifestação assumidos sucessivamente pela Divindade. Por outro lado, também houve alguns que a tal ponto perderam de vista a unidade de Deus, que acabaram no triteísmo. Alguns dos monofisistas mais recentes, como João Ascunages e João Philopono, caíram nesse erro. Durante a Idade Média, o nominalista Roscelino foi acusado do mesmo erro. A Igreja começou a formular a sua doutrina da Trindade no século 4. O Concílio de Niceia (325 d. C.) declarou que o Filho é coessencial com o Pai, enquanto o Concílio de Constantinopla (381 d. C.) afirmou a divindade do Espírito, embora não com a mesma precisão. Quanto à inter-relação dos três, foi oficialmente declarado que o Filho é gerado pelo Pai, e que o Espírito procede do Pai e do Filho. No Oriente, a doutrina da Trindade encontrou a sua proposição mais completa na obra de João de Damasco, e no Ocidente, na grande obra de Agostinho, De Trinitate. A primeira ainda retém um elemento de subordinação, inteiramente eliminado pela segunda.

2. PERÍODO DA PÓS-REFORMA.

Depois da Reforma não temos maior desenvolvimento da doutrina da Trindade, mas o que encontramos repetidamente são algumas das errôneas formulações antigas. Os arminianos, Episcópio, Curceleu e Limborgh reavivaram a doutrina da subordinação, outra vez, ao que parece, principalmente para defender a unidade da Trindade. Eles atribuíram ao Pai uma certa preeminência sobre as outras pessoas - em ordem, dignidade e poder. Posição um tanto parecida foi tomada por Samuel Clarke, na Inglaterra, e pelo teólogo luterano Kahnis. Outros seguiram o caminho indicado por Sabélio, ensinando uma espécie de modalismo, como, por exemplo, Emanuel Swedenborg, que sustentava que o eterno Deus-homem fez-se carne no Filho, e agia por meio do Espírito Santo; Hegel, que fala do Pai como Deus em si, do Filho como Deus se objetivando, e do Espírito como Deus retornando a si mesmo; e Schleiermacher, que considera as três pessoas simplesmente como três aspectos  de Deus: o Pai é Deus como a subjacente unidade de todas as coisas, o Filho é Deus como passando a uma personalidade consciente no homem, e o Espírito Santo é Deus vivendo na Igreja. Os socinianos da época da Reforma seguiam as linhas arianas, mas foram além de Ário, pois para eles Cristo era simples homem e o Espírito Santo apenas um poder ou influência. Eles foram os precursores dos unitários e também dos teólogos modernistas, que falam de Jesus como um mestre divino, e identificam o Espírito Santo com o Deus imanente. Finalmente, também houve alguns que, como consideravam ininteligível a afirmação da doutrina de uma Trindade ontológica, queriam livrar-se dela e se satisfizeram com a doutrina de uma Trindade econômica, uma Trindade como se vê revelada na obra de redenção e na experiência humana. Exemplos de defensores dessa ideia são Moses Stuart, W. L. Alexander e W. A. Brown. Durante um considerável período de tempo, declinou o interesse pela doutrina da Trindade,  e a discussão teológica centralizou-se mais particularmente na personalidade de Deus. Brunner e Barth chamaram de novo a atenção para a sua importância. O último a coloca em primeiro plano, discutindo-a em conexão com a doutrina da revelação, e lhe dedica 220 páginas da sua Dogmática. Materialmente, ele deriva da Escritura a doutrina, mas formal e logicamente, acha que ela está envolvida na simples sentença, "Deus fala". Ele é Revelador (Pai), Revelação (Filho) e Revelatura¹ (Espírito Santo). Ele se revela, é a Revelação e é também o conteúdo da Revelação. Deus e sua revelação se identificam. Em sua revelação ele continua sendo Deus, absolutamente livre e soberano. Essa ideia de Barth não é uma espécie de sabelianismo, pois ele reconhece três pessoas na Divindade. Além disso, ele não admite nenhuma subordinação. Diz ele: "Assim, ao mesmo Deus que, em unidade incólume, é Revelador, Revelação e Revelatura, também se atribui, em sua variedade incólume, precisamente esse modo tríplice de existência".²

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NOTAS:
¹ Emprego como neologismo o termo "Revelatura" para facilitar a compreensão das distinções feitas por Barth embora "Revelação" tenha sentido ativo e passivo, de ato e efeito, podendo, portanto, designar o Filho e o Espírito. Nota do tradutor.

² The Doctrine of the Word of God, p. 344.

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Fonte: Louis Berkhof, Teologia Sistemática, pp. 79, 80, Cultura Cristã. Texto adaptado para o blog Púlpito Reformado.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Movimentos Heréticos no Período Antigo



Por Alderi Souza de Matos


Ebionismo


O termo ebionitas deriva de uma palavra hebraica que significa "pobres" e designa uma seita de judeus cristãos ascéticos que sobreviveram à destruição de Jerusalém no ano 70, indo para o leste do rio Jordão. Sendo judaizantes, criam na salvação pela obediência à lei, rejeitavam os escritos de Paulo e davam ênfase às cartas de Tiago e Pedro. Para eles, Jesus era um profeta humano, o novo Moisés; era o filho de José que, ao ser batizado, foi adotado como Filho de Deus por causa de sua obediência à lei. Por serem poucos e estarem isolados, não subsistiram por muito tempo.


Gnosticismo

O gnosticismo foi uma filosofia religiosa altamente especulativa e sincrética que floresceu no século II, reunindo elementos mitológicos, helenísticos, cristãos e outros. Consistia acima de tudo numa doutrina de salvação. Na sua base estava um dualismo radical que colocava em oposição o mundo espiritual e o mundo material. O Deus supremo era o criador das realidades espirituais, incluindo a alma humana. Desse Deus procedia, por emanação, uma hierarquia de divindades inferiores, a última das quais, por vezes denominada no Pleroma (o mundo espiritual), as almas ficaram aprisionadas em corpos materiais. A salvação consiste na libertação do espírito imortal aprisionado na matéria, para que retorne ao seu mundo original divino. Para isso é necessário o conhecimento (em grego, gnosis), ou seja, a compreensão da situação humana. Esse conhecimento especial teria sido transmitido por Jesus a alguns de seus seguidores e agora era possuído somente pelos gnósticos, que o comunicavam aos seus iniciados (esoterismo).

O profundo desprezo pela matéria fez que os gnósticos representassem uma ameaça para várias convicções cristãs: a doutrina da criação e do governo divino sobre o mundo, o entendimento da salvação, a natureza da pessoa e obra de Cristo e a ressurreição do corpo. O gnosticismo não era um movimento homogêneo, mas muito diversificado. Havia várias escolas gnósticas, como a de Cerinto, na Ásia Menor, e as de Carpocrates, Basílides e Valentino, em Alexandria. Esse último foi para Roma, sendo excluído da igreja por volta de 155. Ensinou que o Cristo divino desceu sobre o homem Jesus em seu batismo e o abandonou antes da sua paixão. Sua missão foi trazer a gnosis, para que por ela os espíritos humanos pudessem retornar ao Pleroma de onde vieram.

Docetismo

O docetismo foi uma antiga manifestação de tendências gnósticas em certos setores do cristianismo primitivo. Em virtude do seu desprezo pela matéria, os docetistas negavam que Cristo tivesse um corpo real, dizendo que ele possuía apenas uma aparência de corpo. Daí o termo "docetismo", do verbo grego dokéo, "parecer". Esse ensino, que questionava a encarnação e a morte de Cristo na cruz, é claramente combatido tanto na literatura joanino do Novo Testamento (cf. 1Jo 4:2s; 2Jo 7) quanto nas cartas de Inácio de Antioquia.

Marcionismo

O marcionismo derivou seu nome de Marcião, também conhecido como Márcion, filho de um bispo de Sinope, na província do Ponto, no norte da Ásia Menor. Por volta do ano 144, ele chegou a Roma e passou a divulgar idéias, sendo expulso da igreja.

Influenciado por conceitos dualistas e gnósticos, Marcião estabeleceu um contraste radical entre o Antigo e o Novo Testamento: o primeiro representa o reino deste mundo e a lei (retribuição); o segundo representa o reino celestial e o evangelho (graça). Para ele, Jeová o criador do mundo material, é um ser imperfeito e vingativo; o Deus verdadeiro - o Pai de Jesus - é amoroso e perdoador. Portanto, cristãos nada têm a ver com o Antigo Testamento e sua divindade. O Deus verdadeiro perdoa a todos e assim toda a humanidade será salva. A salvação é do espírito, não do corpo.

Marcião foi o primeiro a elaborar um cânon do Novo Testamento. Para ele, as Escrituras cristãs deviam incluir somente o evangelho de Lucas e as cartas do apóstolo Paulo às igrejas, sem as pastorais. Os marcionitas formaram uma igreja, que subsistiu por alguns séculos.


Montanismo

O montanismo foi um movimento de natureza carismática ou entusiástica - o primeiro da história da Igreja - surgido na frígia, Ásia Menor, pouco após a metade do século II. Seus líderes eram Montano, um cristão que alegava ser o instrumento do Paráclito (o Espírito Santo), e duas profetizas, Priscila e Maximila.

Denominado "Nova Profecia" por seus adeptos, o movimento visava preparar o caminho para a iminente volta de Cristo e o milênio. A Igreja devia ter uma vida moral rigorosa e sofrer martírio. Por entenderem que eram dirigidos diretamente pelo Espírito, os montanistas se inclinavam a desprezar a Igreja institucional, atraindo a oposição dos seus líderes. Sob pressão intensa, o movimento sobreviveu no norte da África até o século V e na Frígia até o VI.

Monarquianismo

O monarquianismo não foi propriamente um movimento ou grupo organizado, mas um entendimento sobre a doutrina cristã de Deus. Os monarquianos eram fortes defensores da unidade do Ser Divino (monarquia ou monoteísmo) e queriam evitar que a noção de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo resultasse em triteísmo (três deuses). Nesse esforço, eles acabaram adotando duas posições: alguns negaram a divindade de Cristo, afirmando que só o Pai é Deus; outros afirmaram a divindade de Cristo e do Espírito, mas negaram que havia distinções pessoais no ser de Deus.

A primeira posição é conhecida como "monarquianismo dinâmico" ou adocionismo: o homem Jesus foi adorado por Deus como filho e recebeu o poder divino (dynamis). Foi essa a posição dos ebionitas e de Paulo de Samosata, bispo de Antioquia (c. 260), para quem o Verbo era apenas a razão, o poder ou a sabedoria de Deus que habitou no homem Jesus desde a sua concepção.

A segunda posição, denominada "monarquianismo modalista", afirmava que Deus é uma só essência e uma só pessoa, com três "modos" ou manifestações sucessivas - Pai Filho e Espírito Santo. Esse ensino também é conhecido como "sabelianismo", por ter sido defendido no início do século III por um certo Sabélio. Uma variante conhecida como "patripassianismo", abraçada por indivíduos como Práxeas e Noeto, afirmava que o Pai sofreu e morreu na cruz.

Com o passar do tempo, a Igreja acabou condenando como antibíblicas essas posições.


Fonte: Alderi Souza de Matos, Fundamentos de Teologia Histórica, Mundo Cristão, 2008, pp 38 - 41.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fé e Dogma: as Controvérsias Cristológicas da Igreja Antiga


Por Alderi Souza de Matos


Introdução

                A palavra "teologia" desperta reações contraditórias nas pessoas. Para alguns, trata-se de uma atividade não só legítima como indispensável para a Igreja e para os cristãos. Para outros, é algo artificial e condenável, uma produção humana que distorce a revelação de Deus. Tudo de que o crente necessita, dizem eles, é a Palavra de Deus, sem as especulações e os devaneios dos teólogos. Todavia, o fato é que, mesmo sem o saber, todo cristão faz teologia. Essa teologia pode ser boa ou ruim, equilibrada ou tendenciosa, mas todos a fazem. Quando um humilde pregador pentecostal abre a sua Bíblia e começa a interpretá-la, explicá-la e aplicá-la aos seus ouvintes, está fazendo teologia, por mais que desconheça ou deteste essa palavra.


                A teologia não é nada mais, nada menos, que a reflexão acerca das Escrituras e da fé cristã. Uma definição acadêmica diz que ela é "a exposição raciocinada da fé". Como tal, é uma tarefa inevitável da igreja. Uma das razões para isso é a própria riqueza e complexidade das Escrituras e a possibilidade de diferentes entendimentos de muitos de seus textos e ensinos. A Igreja Antiga, ainda nos seus primeiros tempos, defrontou-se com esse desafio. Diante das dissidências internas, ou seja, indivíduos e grupos que faziam interpretações divergentes da mensagem cristã, e dos desafios externos, representados pelos críticos pagãos, os cristãos sentiram a necessidade premente de explicitar e articular de maneira clara e convincente as suas convicções, à luz das Escrituras.


1. Problemas iniciais


                Obviamente, a questão mais central da fé cristã é aquela que diz respeito ao próprio Jesus Cristo. Desde cedo, os cristãos se puseram a refletir intensamente sobre a pessoa e a identidade do Salvador, motivados, inclusive, por considerações apologéticas e missionárias. Era crucial que eles tivessem bastante clareza sobre aquele que havia se tornado o principal ponto de referência de suas vidas. Partindo dos dados bíblicos, especialmente a descrição joanina de Cristo como o Logos ou Verbo (Jo 1.1, 14; 1 Jo 1.1; Ap 19.13), houve o florescimento de uma grande diversidade de concepções, muitas das quais foram consideradas pela Igreja como insatisfatórias ou simplesmente errôneas.


                Entre essas concepções, estavam as que foram englobadas pelo termo "monarquianismo", um grande esforço feito nos séculos segundo e terceiro para preservar, nas discussões sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, uma importante herança recebida pela Igreja do judaísmo - o monoteísmo, ou seja, a afirmação radical da existência de um só Deus. Parecia a muitos cristãos do período que afirmar a divindade do Pai, do Filho e do Espírito era defender o triteísmo, isto é, a existência de três deuses. As diferentes correntes monarquianistas foram classificadas pelos estudiosos em dois grandes grupos.


                O "monarquianismo dinâmico" ou adocionismo negava pura e simplesmente a divindade de Cristo, declarando que Jesus era um mero homem que foi adotado por Deus como filho por ocasião do seu batismo (Mt 3.16-17), sendo revestido pelo poder do Espírito Santo (em grego, "poder" = dynamis, daí dinâmico). Já o "monarquianismo modalista" entendia que Pai, Filho e Espírito Santo eram apenas três "modos" ou manifestações sucessivas do único Deus. Isto é, Deus revelou-se inicialmente como Pai, depois como Filho e finalmente como Espírito Santo. Uma variação dessa corrente, o "patripassianismo", dizia que o próprio Pai sofreu e morreu na cruz. O monarquianismo procurava salvaguardar a unidade de Deus pela negação seja da divindade, seja da personalidade distinta do Filho e do Espírito Santo. Foi rejeitado pela Igreja Antiga devido à convicção de que as suas posições não faziam justiça ao testemunho das Escrituras.


2. A controvérsia ariana


                A realidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo era fundamental para a identidade dos primeiros cristãos desde o dia em que abraçavam a nova fé. No próprio momento do seu batismo, de sua iniciação na vida cristã, essa tríplice realidade era invocada e confessada pelo oficiante e pelo batizando. Vários escritores cristãos dos primeiros séculos fizeram reflexões extremamente penetrantes acerca desse tema, como foi o caso de Irineu de Lião e Tertuliano de Cartago. Mas, foi somente nos séculos quarto e quinto que as discussões teológicas a respeito da "tríade divina" produziram seus frutos mais ricos e duradouros.


                O início do século quarto marcou um dos momentos mais decisivos da história do cristianismo. A adesão do imperador Constantino à fé cristã e o conseqüente Edito de Milão (ano 313) puseram fim a uma longa história de perseguições e deram início a uma história ainda mais longa de ligações entre a Igreja e o Estado. Poucos anos após a ascensão de Constantino, um presbítero de Alexandria, no Egito, chamado Ário, começou a divulgar as suas idéias a respeito de Cristo. Segundo ele, Cristo era muito superior aos seres humanos, mas inferior ao Pai, tendo sido criado por ele antes da existência do mundo. A acirrada controvérsia que se seguiu foi interpretada pelo imperador como um perigo tanto para a unidade da Igreja quanto para a integridade do império. A fim de resolver o problema, ele convocou os bispos cristãos para se reunirem na cidade de Nicéia, perto da capital imperial, Constantinopla, no ano 325.


3. Nicéia e Constantinopla


                O Concílio de Nicéia, o primeiro dos chamados concílios ecumênicos da Igreja Antiga, reuniu cerca de 250 bispos, quase todos da parte oriental ou grega do Império Romano, e representou uma mistura preocupante de agendas políticas e teológicas. Depois de intensos debates, aos quais não faltaram as interferências do monarca, o "arianismo" foi condenado como herético, sendo declarada vitoriosa a posição que defendia a personalidade distinta e a plena divindade de Cristo. O Concílio produziu um famoso Credo cujo ponto culminante foi a declaração de que o Filho era homoousios ou "consubstancial" com o Pai. Todavia, por muitos anos houve fortes resistências contra a "doutrina da trindade" articulada pelos bispos reunidos em Nicéia.


                Foi somente através dos esforços de alguns hábeis teólogos que essa doutrina finalmente veio a encontrar ampla aceitação na região oriental do Império Romano. Quatro deles destacaram-se em especial: Atanásio de Alexandria, Basílio de Cesaréia, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo, sendo estes últimos conhecidos como "os três capadócios". Em sua argumentação, eles apelaram tanto às Escrituras como à experiência da Igreja. Somente um Cristo que fosse ao mesmo tempo divino e humano poderia ser o verdadeiro e eficaz mediador entre Deus e os homens. Por outro lado, os cristãos desde o princípio aprenderam a exaltar a Cristo, adorá-lo no culto e dirigir orações a ele. Somente um ser divino merecia ser tratado desse modo.


                O triunfo da ortodoxia de Nicéia foi sacramentado no Concílio de Constantinopla (ano 381), novamente no contexto de um importante evento político-religioso - a oficialização do cristianismo católico como a religião do império, no ano 380, pelo imperador Teodósio I. Os bispos reunidos na capital imperial reafirmaram as declarações de Nicéia, esclarecendo melhor alguns pontos obscuros e fazendo uma afirmação explícita da personalidade e divindade do Espírito Santo. O novo credo assim produzido ficou conhecido como Credo "Niceno" ou Niceno-Constantinopolitano.


4. Discutindo as duas naturezas


                Finalmente, na primeira metade do século quinto, uma nova controvérsia abalou a cristandade, dessa vez a respeito da relação entre as duas naturezas de Cristo, a divina e a humana. Duas posições básicas se manifestaram desde o início, representadas essencialmente pelas célebres escolas de interpretação bíblica de Alexandria e Antioquia. Os alexandrinos entendiam que o Verbo divino uniu-se à carne, sendo o Cristo encarnado uma pessoa plenamente integrada. Acentuavam, pois, a unidade da pessoa de Cristo, dando mais ênfase à sua divindade do que à sua humanidade. Desse raciocínio resultaram duas posições que foram eventualmente rejeitadas: o "apolinarismo", segundo o qual Jesus era uma combinação de alma racional divina (o Verbo) e corpo humano, e o "monofisismo", que afirmava que as duas naturezas fundiram-se em uma só, a divina.


                Já os antioquianos entendiam que Cristo tinha tanto uma plena natureza divina quanto uma plena natureza humana. Seu problema estava na tendência de dividir em duas a pessoa de Cristo. O grande defensor dessa posição foi Nestório, o Patriarca de Constantinopla. Ele afirmava com tanta ênfase a distinção das naturezas que parecia ensinar que havia duas pessoas em Cristo, uma divina e outra humana. Essas questões foram tratadas em outros dois concílios ecumênicos. O Concílio de Éfeso (ano 431) condenou o "nestorianismo" e o Concílio de Calcedônia (451) condenou também o apolinarismo e o monofisismo. Este último concílio formulou as suas conclusões na célebre Definição de Calcedônia: "Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade e perfeito quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e corpo; consubstancial ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade... Um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação..."


5. Desdobramentos posteriores


                Desde então, esse entendimento da pessoa de Cristo foi amplamente aceito pelos católicos romanos, pelos ortodoxos gregos, e mais tarde pela maior parte dos protestantes. É parte daquilo que se denomina a Fé Cristã Histórica. Todavia, desde aquela época até os nossos dias, têm surgido críticas contra essas formulações doutrinárias da Igreja Antiga, alegando-se desde o uso de terminologia extrabíblica e influências do pensamento grego até as interferências políticas na vida da Igreja. Nos últimos séculos, muitos indivíduos e grupos têm simplesmente negado essas formulações históricas, retrocedendo a antigas posições que foram condenadas pelas mesmas.


                O fato é que, mesmo reconhecendo-se esses problemas e a consideração adicional de que as declarações doutrinárias não são infalíveis, as doutrinas ou dogmas cristológicos da Igreja Antiga, são aceitos pela maioria dos cristãos como uma expressão autêntica da fé bíblica, refletindo de maneira fiel as convicções básicas de incontáveis gerações de seguidores de Cristo. Por limitadas que sejam essas formulações, pois que vazadas em linguagem e categorias de pensamento humanas e condicionadas, elas continuam insuperadas na beleza de seus termos, na profundidade e equilíbrio das suas declarações e no esforço de fazer justiça à totalidade do ensino das Escrituras a respeito de Cristo, sua pessoa e sua obra. Elas reafirmam, em linguagem teológica, a grandiosa mensagem de que "o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (Jo 1.14).


Perguntas para reflexão:
  1. A doutrina cristã de Deus deve ser inteligível, racional, ou simplesmente procurar ater-se ao testemunho das Escrituras?
  2. A pessoa de Cristo foi motivo de controvérsia e escândalo no período antigo e continua a sê-lo hoje. Isso deve preocupar os cristãos?
  3. Que aplicações valiosas e encorajadoras podem ser tiradas da triunidade de Deus?
  4. Se a doutrina do Pai, do Filho e do Espírito Santo precisasse ser repensada hoje, em que direção isso deveria ocorrer?
  5. Quais as conseqüências práticas de se acreditar ou não na divindade de Cristo?
Sugestões bibliográficas:
  • BAILLIE, D. M. Deus estava em Cristo: ensaio sobre a encarnação e a expiação. 2ª ed. Rio de Janeiro: JUERP/ASTE, 1983.
  • BERKOWER, G. C. A pessoa de Cristo. São Paulo: JUERP, 1983.
  • CAMPOS, Heber Carlos de. A pessoa de Cristo: as duas naturezas do Redentor. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
  • McLEOD, Donald. A pessoa de Cristo. Série Teologia Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.
  • WALLACE, R.S. Cristologia. Em ELWELL, Walter A. (Ed.). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 1988-1990. Vol. I, p. 381-389.


Fonte: Mackenzie